Guerra dos sexos em Mikulov

Para participação no Concurso Literário “Pense Algo Bonito, Sonhe com Tchéquia”, Leonardo Siviotti de Alcantara submeteu um divertido conto ambientado em Mikulov, na Morávia do Sul, no qual um casal trava uma pequena guerra pessoal durante a encenação da Batalha de Austerlitz. Veja e aprecie esse ótimo texto.

Por: Colaborador Convidado

Publicado: Julho 02, 2020

Uma Batalha Em Mikulov

Leonardo Siviotti de Alcantara

Tropas marchavam pelo centro de Mikulov. Austríacos com o uniforme predominante branco, franceses de azul. De forma elegante e organizada, os soldados se perfilaram sob as ordens de seus respectivos comandantes. Armas foram apontadas e disparadas, levantando fumaça. Os populares na calçada aplaudiram.      

— Olha, Karel. Aquele sobre o cavalo é Napoleão! — a avó indicou para o garoto.  Apesar da idade elevada e das crescentes dores nas costas, a mulher ergueu o neto de oito anos para que ele não tivesse sua visão bloqueada por ninguém da plateia.

— Explique que não foi desse jeito — alertou o avô. — Essa batalha não aconteceu aqui. Napoleão só passou a noite no castelo. Deve ter comido bem, tomado um bom vinho e dormido tranquilo. No dia seguinte, continuou a sua viagem.

— Deixe de ser chato. O que você queria assistir? Que reencenassem ele tomando vinho? Dormindo? De pijama? O garoto só quer se divertir com os soldados e os tiros de festim.

— Mas isso não aconteceu desse jeito. Não aqui em Mikulov.

A encenação continuou. O avô tinha razão. Em 15 e 16 de setembro 1809, Napoleão esteve no Castelo de Mikulov, como informava a placa de aço no pátio da histórica construção. As batalhas entre Áustria e França, contudo, ocorreram em outros locais nas proximidades da cidade tcheca. Seu neto não se incomodava com a falta de precisão histórica. Socava o ar comemorando o que via. Estava muito mais legal agora do que meia hora atrás, quando a plateia pôde acompanhar de perto o treinamento dos soldados pelos acampamentos. Testemunhava momentos de pura ação, como nos videogames que gostava de jogar. Porém, quando um dos soldados austríacos cambaleou e caiu na sua frente após ser atingido, a criança gritou, insistiu para ser colocada no chão e escondeu-se atrás da avó.

— Está tudo bem — ela tentou acalmá-lo. — É tudo faz de conta.

A expressão de medo no rosto do pequeno só desmanchou quando o soldado “morto” piscou e sorriu para ele. O homem no chão escolheu o lado austríaco em homenagem aos seus antepassados. Não que tivesse problemas em interpretar um francês. Vestir aqueles uniformes e sentir-se numa batalha do século XIX era muito mais empolgante do que vestir o avental de açougueiro como fazia diariamente. Aguardou semanas por aquela morte. Planejara a cena em detalhes.  

 Enquanto quase duzentos homens em uniformes militares continuavam a batalha, os avós de Karel lutavam a sua guerra particular: 

— Por que não conta a ele sobre a passagem por aqui do exército alemão na Segunda Guerra? Por que não reencenam isso? — questionou o homem?

— Porque ninguém, criança ou velho como nós, quer ver um castelo bonito como esse em chamas. Isso seria de um tremendo mau gosto, algo que pelo visto sobra em você, mas felizmente não atinge o resto da cidade.

— Vai ver esse mau gosto explica eu ter me casado há quarenta e cinco anos contigo.

Ela o fuzilou com os olhos. Sentindo o golpe, envergonhado do próprio comentário, o idoso virou o rosto para o lado oposto. O soldado caído no chão assistia a disputa, invertendo por completo a relação plateia e encenador.

Menos de um minuto depois, o homem arrependido se aproximou lentamente de sua esposa. Posicionou-se ao lado dela e pegou em sua mão. A mulher deixou que a tocasse. Quando tudo parecia em paz, apertou os dedos do marido com força e disse:

— Pare de tentar estragar o dia! Ele quase nunca passa um tempo com a gente. Vamos aproveitar e fazer dessa uma tarde memorável para o garoto.

Fazendo careta, o avô concordou com a cabeça. Ela o soltou. Ele examinou a mão, abrindo e fechando os dedos. O soldado caído riu. Logo depois, três membros do seu exército vieram buscá-lo. Voltou a fingir-se de morto, mas o sorriso continuava em seus lábios enquanto era carregado na maca.  

Os tiros de festim pipocavam. A fumaceira se espalhava. O garoto vidrado, lamentando não ter como gravar aquilo. Queria mostrar aos pais quando voltasse para casa na semana seguinte. Apresentar aos colegas de escola um pouco da história da cidade de origem de sua família.

O avô se aproximou outra vez de sua amada. Envolveu-a com seu braço. Deu-lhe um beijo na bochecha. Colou a boca do ouvido dela, tentando vencer os barulhentos disparos dos soldados.  

— Se não fosse por tudo que aconteceu aqui na Segunda Guerra, toda aquela tragédia, minha família jamais teriam conhecido a sua — disse num tom reconciliador que em nada lembrava a sua postura até então. — A guerra possibilitou que nossos destinos se cruzassem. É isso que eu gostaria que fosse reconstituído: toda minha vida contigo.

A avó sorriu. Olhou nos olhos do seu marido e disse:

— Vamos relaxar e curtir o espetáculo. É tudo que peço.

— Então temos nosso tratado de paz?

— Não exatamente. Você se rendeu a alguns instantes. Eu venci. Triunfei! O avô discordou, mas não ousou enfrentá-la. Apaziguador, colocou-se atrás da esposa, do jeito que ela fazia com o garoto, e a abraçou. Viram Napoleão, montado em seu cavalo, passar imponente na direção do castelo, escoltado por parte de seu exército. Aplaudiram-no. Somente um deles sentiu a mão doer. Marcas de uma batalha em Mikulov

 

 

 

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